Eco Serrano


Testemunhas afirmam excesso de vigia, perseguição e “ambiente tóxico”. Servidora teria pensado em suicídio e outros três afastados por licença médica. Wellington Moreira alega que acusações são mentiras, fala que denúncias são retaliações e mostra melhorias durante seu mandato

O presidente da Câmara Municipal, Wellington Moreira, está sendo investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, após ser denunciado por alguns servidores e ex-servidores de assédio moral. Ao que parece, existiram ainda outras três denúncias contra ele no MPRJ, pelos mesmos motivos, mas que teriam sido arquivadas pelo órgão. Somente após uma quarta denúncia, com provas supostamente mais robustas e relatos à Comissão de Ética da Câmara Municipal é que as investigações teriam começado. Segundo apurou o EcoSerrano, no Ministério Público do Trabalho (MPT) também existe outra ação. Há relatos de que uma funcionária teria pensado em suicídio por conta da pressão exercida pelo parlamentar.

Alguns servidores do parlamento friburguense acusam o presidente de perseguição, constrangimento, abuso de poder, tortura psicológica e retirada de gratificações sem justificativa, porque, segundo afirmaram na denúncia, era uma retaliação porque não estariam ao lado dele durante seu mandato.

“Estou com a minha consciência tranquila. Realmente há as denúncias no MPT, no Ministério Público Estadual, de assédio moral e perseguição, já passei por oitivas nesses órgãos e fiz a minha defesa”, disse Wellington ao EcoSerrano.

Servidora teria pensado em se matar após pressão

Em janeiro de 2021, os vereadores Marcinho Alves e Wellington Moreira disputaram a presidência da Câmara, na qual Wellington saiu-se vencedor. Após a eleição, uma servidora alega que começou a ser coagida e perseguida por Moreira por ter apoiado seu opositor.

Na denúncia, a servidora relata que foi proibida pelo chefe do legislativo de “cantarolar” nos corredores, proibida de estacionar seu veículo dentro da Câmara, foi rebaixada de seu cargo, teve suas responsabilidades reduzidas, perdeu gratificação e teve suas férias negadas. Na denúncia, a servidora alega que passou a se sentir como escrava, “tapando buraco na Câmara, humilhada, desprestigiada e abalada”. Com o tempo, a denunciante disse que passou a ter muita dificuldade financeira – fato que, segundo ela, foi alvo de ironia de Wellington – além de, diariamente, ter crises de medo, choro, ansiedade e pânico durante o expediente.

Diante deste quadro, segundo apurou o EcoSerrano, a servidora foi encaminhada para uma psicóloga, tirou licença médica porque foi diagnosticada com Transtorno Misto Ansioso e Depressivo, passou a fazer uso de remédios controlados e pensou até em “se jogar debaixo de um carro após um surto que teria sido motivado por conta da pressão exercida pelo presidente da Câmara. Além dela, outros três servidores teriam se afastado por licença médica por conta da possível perseguição do parlamentar.

Sobre a questão da retirada de gratificação, Wellington afirma que há um rodízio de funcionários a receberem valores extras. No caso desta denúncia, Moreira disse que a servidora em questão teve sua gratificação retirada por conta desse rodízio.

“Essa pessoa passou a receber a gratificação por trabalhar com a questão das licitações e depois de um tempo, cerca de 12 meses depois, essa gratificação foi retirada para ir para outra pessoa. Todo ano em janeiro acontece esse rodízio. Não foi perseguição. Isso é uma mentira”, se defendeu.

Sobre a questão do suicídio o presidente da Câmara ressaltou que nada foi provado contra ele de que os problemas alegados estão relacionados com o trabalho no Legislativo friburguense: “Não foi provado nada disso. Ela pediu 90 dias de afastamento. Antes, andava pelos corredores cantando, andava de moto, tomava medicamento tarja preta, curtia praia, curtia a vida, durante a licença. Em algumas oportunidades, ela esteve em visita na própria Câmara durante o período de afastamento, sendo que ela afirma que foi o trabalho a principal razão da licença”, respondeu o líder da Câmara.

Presidente teria coagido funcionários para ignorar desafeto

Em uma outra denúncia, também apurada pela Comissão de Ética da Câmara, Wellington Moreira também é investigado por perseguição e assédio moral. De acordo com a denúncia, logo que assumiu a presidência, o vereador teria coagido alguns servidores para saber “se estariam com ele ou não”. Moreira teria dito que aqueles que estivessem ao seu lado teriam tudo, inclusive gratificações, e quem não estivesse não teria nada.

Logo em seguida, alguns funcionários informaram ao EcoSerrano que Wellington teria nomeado servidores com o intuito de vigiar os outros e que eles passaram a ser seus olhos e ouvidos na Câmara. Este fato foi relatado por outras fontes ao portal.

Em alguns casos, as fontes disseram que o chefe do Legislativo perseguia tanto alguns funcionários que, na hora de avaliar o trabalho destas pessoas, os responsáveis por estas avaliações teriam sido orientados de forma sutil, por Wellington, a dar nota baixa sem justificativa plausível, o que poderia comprometer a permanência desses servidores dentro da Casa. Houve quem não seguiu esta “recomendação” do parlamentar e dado “notas justas” ao desempenho destes funcionários. Ao constatar este fato, Wellington teria demonstrado grande insatisfação. 

Na denúncia, consta ainda que o presidente tentou por diversas vezes abrir processos administrativos (PAD) contra estes funcionários e chegou a trocar alguns membros da comissão que avaliava estas pessoas porque se recusaram a lançar notas baixas sem motivo.

Constam ainda as ordens para que alguns funcionários tivessem atribuições de serviços não condizentes com seus cargos. Ao se recusarem a fazer os trabalhos alegando acúmulo e desvio de função, o presidente via precedente para abrir um PAD por insubordinação.

“Quando eu assumi a presidência, sentei com o RH para saber que servidores exerciam funções além de suas atribuições. Para esses eu dei as gratificações. Outros perderam as gratificações porque não participavam de atividades extras. Na questão da nota, não teve interferência nenhuma da minha parte. Quem dá a nota é o chefe da pessoa. Não dei ordem alguma para que qualquer servidor tivesse sua nota reduzida. Uma das pessoas que alega isso teve sua gratificação retirada porque, após uma sindicância aberta por mim, foi constatado um erro no contrato em que se pagou a mais por três anos uma determinada empresa. Não houve má fé, mas houve o erro”, afirmou Moreira.

Ao EcoSerrano, foi relatado ainda que Wellington Moreira isolava seus desafetos e passava a constranger, coagir e cercear os próprios assessores de terem qualquer contato com as pessoas “isoladas”. Estes funcionários relataram que passaram a ser ignorados por seus colegas de Câmara e que chegaram a receber mensagens no Whatsapp com pedidos de desculpas pela atitude, mas que esse distanciamento seria necessário para que eles pudessem se manter no emprego.

“Ambiente tóxico”

O EcoSerrano ouviu algumas pessoas que trabalharam diretamente com Wellington Moreira nos últimos anos. Segundo estes ex-funcionários, o presidente da Câmara é uma pessoa de humor imprevisível, bipolar, agressivo e que este comportamento causava medo e tensão no local de trabalho, considerado por eles um “ambiente tóxico”. Segundo estas pessoas, Wellington Moreira é uma pessoa que “não sabe ouvir ”não”, paranóica e insegura“.

As fontes ouvidas pelo portal afirmaram que, dentro do gabinete do vereador, há uma alta rotatividade de funcionários devido ao comportamento do presidente da Câmara. “Ninguém aguenta”.

Em apenas três meses, quase 10 pessoas teriam sido nomeadas e pediram exoneração na equipe de Wellington Moreira. As informações levantadas pelo EcoSerrano dão conta de que diversos funcionários teriam desenvolvido crises de ansiedade, precisaram de intervenção médica e passaram a viver a base de remédios controlados. Muitos destes funcionários chegavam à Câmara e começavam a chorar e tremer. O “rito” também acontecia logo após o final do expediente.

“Quem ainda está lá é porque compactua e pratica essas atitudes ou porque não tem alternativa por depender do emprego. São as pessoas deste último grupo as que mais sofrem”, disse uma testemunha.

Em sua defesa, Wellington Moreira afirmou que é um chefe de postura firme e que, quando precisa chamar atenção de algum servidor, o faz de forma respeitosa, dentro da normalidade de um ambiente de trabalho e que isso não configura em nada acusações de assédio moral. “As pessoas quando vêem coisas erradas, e aí você se posiciona, elas se sentem acuadas e começam a falar mentiras. Eu me dou bem com todos os meus assessores, todos eles gostam de mim. Eu coloquei o sistema de catraca na Câmara para ter controle de entrada e saída de pessoas e dar mais segurança na Casa. Isso incomodou. Eu sou firme em certas situações. Quando você é gestor, precisa ter firmeza, mas sempre respeitosamente, como eu fui. Quando você mexe no bolso de alguém e coloca pra trabalhar, aí vem a retaliação”, alegou.

Redes Sociais

As testemunhas ouvidas pelo portal afirmam que há uma preocupação excessiva do presidente da Câmara com suas redes sociais. Funcionários diretos do gabinete de Wellington Moreira seriam constantemente obrigados a curtir, comentar e compartilhar as postagens do vereador.

Teriam sido diversas reuniões com a equipe do gabinete do presidente, em que os servidores “menos engajados” eram frequentemente ameaçados de demissão caso não “perdessem um minuto do dia” para curtir, comentar e compartilhar nas redes sociais do presidente.

“Os comentários positivos nas suas redes, em grande parte, são de pessoas que pertencem a equipe dele. Havia a recomendação explícita de que quem não tivesse engajamento nas redes sociais seria demitido. Não duvido que, após a veiculação dessa reportagem, não haja uma ordem para que comentem nesta matéria negando tudo que foi dito. Tudo encomendado”, alertou uma fonte.

Neste caso, Moreira diz que vê com naturalidade que seus servidores se engajem em suas redes sociais, como acontece com outros parlamentares. O presidente da Câmara afirmou categoricamente que nunca houve ordem e nem ameaça de demissão em caso da pessoa não se engajar em suas redes sociais.

“Pode ver os assessores dos 21 vereadores, todos eles compartilham os conteúdos das postagens dos parlamentares automaticamente. Não houve nenhuma recomendação de obrigatoriedade para compartilhamentos em redes sociais”, garantiu ao EcoSerrano.

Selo Anticorrupção

Prestes a passar o bastão de presidente da Câmara Municipal (as eleições ocorrem no próximo dia 29 e, ao que tudo indica, o vereador Max Bill é o grande favorito), Wellington disse com orgulho ao portal EcoSerrano algumas de suas principais realizações nos últimos dois anos, como a indicação do Selo Azul anticorrupção.

O selo refere-se ao “Programa Nacional de Prevenção à Corrupção”, criado para a promoção da ética e da integridade no setor público. A iniciativa é da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU) e, no âmbito estadual, da Controladoria Geral do Estado (CGE).

“Eu organizei a casa. Fiz a maior devolução de recursos financeiros à Prefeitura. Antes era devolvido em média R$ 400 mil e comigo foram mais de R$ 1 milhão. Identifiquei oficialmente os carros do Legislativo e isso facilita a fiscalização do uso do equipamento público. Ao invés de comprar novos veículos, disparei recursos para consertá-los, o que saiu muito mais barato. O modo como se calculava o triênio estava errado e isso prejudicava financeiramente a Câmara. Eu acabei com isso. Em breve poderemos exibir o Selo Azul anticorrupção na qual a Câmara foi indicada e já deu entrada no processo para aderi-lo”, finalizou

Conselho de Ética

O EcoSerrano também entrou em contato com a presidente da Comissão de Ética, Priscila Pitta. Segundo a vereadora, a Comissão não pode se manifestar no momento, porque a investigação do processo está em andamento e a ação corre em sigilo.

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